sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Executivo, o Legislativo, o Judiciário e você: das pautas impostas aos debates necessários

por ALCEU LUÍS CASTILHO (@alceucastilho)

As elites disputam espaço em Brasília. Executivo, Legislativo e Judiciário aparecem nos jornais como "los tres enemigos". Ganham manchetes e selecionam nossa indignação. Como se a adesão a algum lado contribuísse para um país mais republicano. Fala-se deste ou daquele personagem (mais gordo ou menos engomado) como se a retirada deste ou daquele da cena política fosse acarretar mudanças substanciais em nossa sociedade.

Abraçamos demonizações, em detrimento dos debates estruturais. E da necessidade de empoderamento, de maior participação da sociedade no debate político – não somente como voyeur.

Enquanto isso, um Brasil é empurrado para debaixo do tapete: índios chacinados em Roraima são ignorados, grupos de extermínio (por policiais) em São Paulo não alcançam a primeira página dos jornais, as remoções da Copa não competem com a última aberração verbal de Jérôme Valcke. Por onde andaria nosso projeto de nação?

Até há algum debate no Congresso (aquela instituição que, calculadamente, mais se demoniza), mas quem disse que sai na nossa gloriosa imprensa?

Uma das novidades ocorreu na noite desta quinta-feira, em São Paulo. Um debate em praça pública, sobre direitos humanos, encabeçado pelo cartunista Laerte. Com a participação de um político, é bem verdade (o deputado Jean Wyllys, do PSOL-RJ), mas um significado muito maior para a nossa cidadania. Isto no mesmo dia em que cartunistas se uniram, nas páginas da Folha de S. Paulo, em um beijaço contra o obscurantismo.

Ocorre que o obscurantismo não atende apenas pelo nome de Marco Feliciano. Ou Renan Calheiros, ou Gilmar Mendes. (Troquem os nomes de acordo com as preferências políticas, não importa.) O Brasil tem um déficit de debate público efetivo desproporcional à avalanche – superficial – de informações despejadas diariamente.

Teço essas considerações como um convite. É preciso ler mais: imprensa alternativa, livros, trabalhos acadêmicos. Estamos reduzindo nossa massa cinzenta a partir de pautas impostas, processadas. Tenho lido diariamente opiniões de colegas e amigos muito bem intencionados, com uma (muito bem-vinda) capacidade resistente de indignação. Mas reféns de discursos que nos foram impingidos, cortinas de fumaça em relação aos problemas de fundo.

Existe um Brasil profundo (violento, excludente) que precisa ser melhor discutido. Questão agrária e racismo, questão ambiental e machismo, questão urbana e higienismo não são temas que o Joaquim Barbosa vai resolver. Dependem de nossa participação direta em movimentos sociais e ambientais. (E não somente nos partidos ou nos dias de eleições.) Da construção de novos paradigmas de representação. E manifestação.

(Apenas para citar um exemplo de grande tema, brinquei outro dia que começarei a chamar o Brasil de Griladão. Por causa de sua grilagem estrutural - e pouco divulgada. Dessa grilagem que constitui o território brasileiro e desafia os discursos cínicos sobre legalidade. "Griladão, Ordem e Progresso". Mas creio que o Roberto Jefferson seja mais eficiente do que eu como marqueteiro.)

Temos hoje TV ao vivo pela internet, temos facilidade para financiamento coletivo de projetos, temos uma avenida virtual para informações contra-hegemônicas, mas precisamos aproveitar mais esses espaços crescentes. Desconfiando da extensão dos espaços anteriormente oferecidos – ocupados por uma espécie de oligopólio dos discursos conservadores. Por que dar tanta bola para esse clubinho da grande imprensa? Podemos muito mais que isso.
 

Temos a oportunidade de dizer ao mundo (em tempos de Copa e Olimpíadas) a que viemos, qual o nosso papel possível nesse xadrez mundial, mas estamos tímidos. Funcionando apenas como caixa de ressonância. E não sujeitos ativos na construção de uma nova sociedade – que preze (de forma inédita na história) o homem e o planeta, e não as agendas bélicas e economicamente predadoras.

Em outras palavras, o quarto poder (antes, a imprensa) já foi devidamente ampliado. Mas precisamos utilizar melhor suas ferramentas. Depois do teatro do oprimido e da pedagogia do oprimido, temos a internet do oprimido. Seu desenho está em plena gestação. Sua agenda, em aberto.

A agenda do poder é opressiva. E limitada. Em um país de 190 milhões de pessoas, é ditada por apenas umas poucas cabeças – nem tão pensantes assim. Mas poucos percebem o quanto estamos nela enredados.

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